segunda-feira, 23 de maio de 2016

O mais querido de Limoeiro

Centristas somos todos nós, centristas somos todos nós, centristas somos todos nós, desde os tempos dos nossos avós”. O trecho do hino expressa a paixão e o orgulho de uma cidade por um clube. Limoeiro, município do Agreste de Pernambuco, é a terra do Centro Limoeirense, primeira agremiação de futebol do interior pernambucano e terceiro time mais antigo do Estado. Fundado em 15 de setembro de 1913, o Dragão só é mais novo que o Clube Náutico Capibaribe, de 7 de abril de 1901, e o Sport Club do Recife, de 13 de maio de 1905. “Sou centrista sou bom, sou do clube mais querido. E é isso que digo, posso até me orgulhar”.
A origem da instituição esportiva pode ser explicada pelo desenvolvimento econômico da cidade, à época com apenas 20 anos de emancipação política. Durante décadas, o cultivo de algodão alavancou a economia do município, hoje sustentada em grande parte pelo setor de serviços.
A casa do Alvirrubro de Limoeiro é o Estádio José Vareda, popularmente chamado de “Varedão”. A praça esportiva tem capacidade máxima de cinco mil pessoas e está situada na Avenida Capibaribe, no Bairro da Pirauíra. Já a sede fica na Rua Vigário Joaquim Pinto, no centro da cidade.
Passaram-se 102 anos e o Centro continua de pé. Apesar das dificuldades, o clube provoca um sentimento de nostalgia e de carinho em quem, de alguma forma, está envolvido ou se envolveu com a instituição. A aposentada Maria Dolores Viana Prates, de 81 anos, considera o clube como parte da sua família. “Meu pai (Flodoaldo Deodiles Prates) já foi jogador do Centro. Ele era farmacêutico, mas sempre tirava um tempo para jogar. Jogava por amor. E meus irmãos (Clodoaldo Viana Prates, o “Coló”, e Maria da Conceição Prates de Lima, a “Cecita”) já fizeram parte da diretoria”, conta.
Eu também já fui da diretoria. Era madrinha do time. Acompanhava os jogadores da sede até o campo. Era como se fosse uma capitã. A gente ia pros jogos a pé”, recorda. “O Centro é mesmo que ser da família”, brinca.
Dona Dolores garante: era funcionária de mão cheia. “Eu era costureira. Fazia muitos enfeites pro clube em tempos de festa, principalmente Carnaval e festa junina. Meu irmão levava meu pai pra sede, pra ver como as coisas ficavam. Era tudo lindo”, lembra.
Todo esse carinho não veio à toa. O Centro Limoeirense recebe a alcunha de “O Mais Querido”. A origem do apelido se explica pelo fato de o Dragão, historicamente, ser conhecido como o time da classe trabalhadora e popular da cidade. O clube mantinha uma forte rivalidade com o Colombo Sport Club, fundado em 1918. O alvinegro era o clube da elite, e por isso era conhecido como “O Aristocrático”. Existiam outros clubes, como Ypiranga, Colorado e Alecrim, mas todos eles – incluindo o próprio Colombo – se restringiram ao amadorismo. Hoje, estão desativados. Somente o Centro adquiriu o status de profissional. Além disso, o Alvirrubro de Limoeiro tem casa própria: o Estádio José Vareda.
Ex-goleiro do Dragão na década de 60, o senhor Izaltino Bezerra da Silva, de 66 anos, recorda com enorme saudosismo os tempos em que defendeu a meta alvirrubra. “Naquele tempo o futebol de Limoeiro era forte. Dava gosto de ir pro campo torcer ou jogar. O futebol da cidade infelizmente não tem a mesma força hoje. O futebol de Limoeiro acabou”, comenta.
Seu Izaltino vestiu as cores do Centro em quatro categorias: infantil, juvenil, aspirante e profissional. “Tem até uma história engraçada. Uma vez eu tava jogando e me machuquei. Pedi para trazerem gelo. Só que entenderam errado. Gelo era o apelido do goleiro reserva e botaram ele no meu lugar”, conta aos risos.
O aposentado revela que também já atuou nos times rivais. “Ainda joguei seis anos no Colombo e dois no Ypiranga. Antes era proibido defender o rival por aqui, mas depois isso acabou”, diz.
Apesar de já ter atuado por outras equipes, Seu Izaltino garante que o Centro é sua paixão na cidade e não economiza elogios ao falar da importância do clube para o município. “O Centro representa muita coisa pra gente. É um clube com muita história e tradição, tem 102 anos. É patrimônio de Limoeiro”, sublinha.
O Centro é tudo na minha vida em termos de futebol”
Jogador centrista entre os anos de 1960 e 1995, o senhor Francisco Lucena tem um enorme carinho pela equipe. “O Centro é um clube centenário. Felizmente fiz parte dessa história. O Centro é tudo na minha vida em termos de futebol. Joguei sem ganhar nenhum centavo. Foi tudo por amor”, declara. “Comecei a jogar no time já na categoria infantil, com 10 anos de idade, em 1960. Só parei de jogar aos 45 anos, em 1995. Joguei em todas as categorias (infantil, juvenil, aspirante e máster), menos no profissional”, relata o aposentado, de 65 anos.
Lucena, como é conhecido, conta que não tinha função definida enquanto jogador. Era polivalente. “Joguei em todas as posições. Até mesmo de goleiro. Uma vez, no campeonato de másters, os dois goleiros foram expulsos e eu fui pro gol. O técnico na época era Danda Correia”, revela.
Os comentários do ex-jogador também têm teor histórico. “Sou de João Alfredo (cidade vizinha a Limoeiro). Quando cheguei em Limoeiro, me falavam muito do Coronel Chico Heráclio (ex-prefeito da cidade, que já foi conhecida como “Terra dos Coronéis”). Me contaram que uma vez marcaram um pênalti contra o Centro e ele entrou no gramado pra obrigar o juiz a anular o pênalti. Talvez seja lenda. Mas me falavam muito dele”, diz.
Seu Lucena também deixa transparecer o saudosismo quando volta no tempo para falar sobre sua época de atleta. “O elenco era muito unido. Ninguém jogava pra derrubar treinador ou se machucava de propósito. Se tivesse que jogar por dois dias seguidos, a gente jogava. Tínhamos amor ao clube, coisa que tá em falta hoje”, garante. “Sempre vinha muita gente para os jogos”, lembra.
Joguei no Colombo por uma temporada. Apesar de ser um time rival, a torcida não se chateou. Minha paixão sempre foi o Centro. Também joguei no time da Narciso Maia, uma loja de tecidos onde eu trabalhava. Os jogos deles também recebiam bons públicos. O pessoal prestigiava muito”, encerra.
Depois de ficar de fora da Série A2 em 2015, Dragão tenta se recuperar do baque
Em toda a sua história, o Centro Limoeirense coleciona seis presenças na elite do futebol estadual. Participou das edições de 1963, 1964, 1996, 1997, 2001 e 2008. Hoje a realidade é cruel. Em 2015, a Federação Pernambucana de Futebol (FPF) não permitiu a participação do Dragão na Série A2 do Campeonato Pernambucano. Houve problemas na documentação requerida para a disputa da competição. Um grande baque. Com receitas escassas, o clube tenta se reconstruir – e, acima de tudo, sobreviver. Hoje, movimenta-se para disputar a A2 de 2016.
A importância do Dragão para a cidade é utilizada como motivação para seguir em frente. “O Centro é um dos clubes mais populares de Pernambuco. Sempre leva muita gente ao Estádio José Vareda. Seus jogos são muito importantes para o comércio em geral, que lucra com tudo isso”, afirma Geraldo Hermínio da Silva, 65 anos, atual presidente do clube. Seu mandato se iniciou em 2015, ano das últimas eleições presidenciais da agremiação, e vai até 2017.
Jogador do Dragão nos anos 70, Seu Geraldo recorda o empenho do elenco para manter o clube vivo naquela época. “A gente ajudava a comprar os materiais esportivos e bancava as passagens para as outras cidades em que íamos jogar. Jogávamos por amor”, ressalta.
A antiga rivalidade com o Colombo também é lembrada pelo mandatário. “Na minha época, centrista não pisava na calçada do Colombo e colombiano não pisava na calçada do Centro”, destaca.
Depois de pendurar as chuteiras, Geraldo Hermínio assumiu a função de dirigente. Foi diretor de esportes do Colombo e do Centro. Além disso, presidiu a Liga Limoeirense de Futebol por 35 anos, hoje comandada pelo filho Flamarion Hermínio. O vice-presidente da Liga também é seu filho: Flávio Hermínio, 42.
Ganhe, empate ou perca dentro das quatro linhas, o Centro Limoeirense é um clube que nunca perde a esperança. Está acostumado às dificuldades há mais de um século. Apesar dos pesares, é e sempre será eterno em Limoeiro.

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