Maria Dolores Viana Prates dedicou boa parte dos seus 82 anos de vida ao Centro Limoeirense. A aposentada garante que era uma costureira de mão cheia. Era, também, madrinha do time. Acompanhava os jogadores da sede até o estádio, numa espécie de cortejo. Frequentava festas no clube com a mãe, o pai, a irmã e os três irmãos. E recorda o período com muita nostalgia. A época é distante, mas as lembranças são sempre vivas. O encanto é real.
O Centro Limoeirense é o mesmo que ser da família (risos). Meu pai era farmacêutico de profissão e jogava pelo Centro nas horas vagas. Ele gostava muito de jogar bola. Não é porque era meu pai, mas ele jogava bem, era danado com a bola no pé. Era um profissional muito bom, tanto na farmácia quanto no campo. Eu admirava muito. Muita gente desenganada do médico ia para a farmácia dele e saía de lá melhor. E mesmo com todo esse trabalho, ele ainda tirava um tempo para jogar bola. Não ganhava um tostão, jogava por amor. Eu ia aos jogos com meus irmãos para ver nosso pai jogar.
Nem de Limoeiro ele era. Era de Goiana, mas veio para cá a trabalho, conheceu minha mãe e ficou por aqui. Virou um limoeirense de alma. Tem até nome de rua com ele, a da esquina da igreja de Santa Luzia, no bairro da Linha. Ele foi muito importante, tenho orgulho de ser filha dele (emociona-se).
Ele era muito devoto de Santa Terezinha e deu o nome da santa à farmácia. Depois que ele morreu, meus irmãos e eu continuamos com o local, vendendo remédios, lambedor, velas, imagens de santos. Agora que tudinho morreu e só minha irmã e eu ficamos, o lugar fechou. Mas a gente tem muita história para contar (emociona-se).
Minha família toda era centrista. Pai (Flodoaldo Deodiles Prates), mãe (Carmen Dolores Viana Prates), meus três irmãos (Clodoaldo Viana Prates, Valdemar Viana Prates e Nivaldo Viana Prates), minha irmã (Maria da Conceição Prates de Lima) e eu (Maria Dolores Viana Prates). Todo mundo era fanático e ajudava muito o clube.
Meu irmão Clodoaldo, conhecido pelo povo como “Coló” e a quem eu chamava de “Toió” porque foi um nome que inventei quando era pequena, e minha irmã Conceição, conhecida como “Cecita”, faziam parte da diretoria. Eu também fui da diretoria, lá pelos anos 50, 60... Por aí. Era madrinha do time. Acompanhava os jogadores da sede até o campo. Era como se fosse uma capitã. A gente ia aos jogos a pé. Era como se fosse um cortejo. Todo mundo parava para ver. O Centro levava multidões.
Já fui para jogo em Caruaru, contra o Central, já fui para Campina Grande, quando o Centro jogou contra o Treze. De ônibus, claro. Eu era bem fanática. O time era muito bom, os jogadores jogavam por amor. Hoje em dia não tem mais isso.
Os melhores momentos da minha vida foram naquela sede (do Centro Limoeirense). Era muito animado, era muita festa. Em todos os dias do Carnaval a gente estava lá, o dia todo. Chegava em casa muito cansada, mas muito animada. Dava pena quando as festas acabavam. Mas tinha todo ano. Era muito bom.
Eu era costureira. Fazia muitos enfeites para o clube em tempos de festa. Meu irmão (Clodoaldo) levava meu pai para a sede, para ver como as coisas ficavam. Era tudo lindo. Aquele tempo era bom demais, pena que não volta mais. Hoje a sede acabou-se para festas, por causa dessas festas de rua.
A gente era fanático pelo Centro. Pendurava bandeira no quintal, não perdia jogo, ia para festas de Carnaval e São João na sede. A gente não perdia nada. Tudo do clube tinha a gente no meio.
Minha família trabalhou muito para o Centro. A gente tem muita coisa do time: broche, carteirinha... A gente tem CD com o hino a gente tem. Meu irmão pediu para gravarem. Até sei o hino: “Centristas somos todos nós, centristas somos todos nós, centristas somos todos nós, centristas somos todos nós, desde os tempos de nossos avós”.
O gosto pelo Centro também foi passado para os meus sobrinhos. Todo mundo ia para jogo, ia para festa. Todo mundo virou centrista.
Ninguém queria saber de Colombo (o grande rival do Dragão) lá em casa. Sou do tempo em que centrista não pisava na calçada do Colombo e colombiano não pisava na calçada do Centro. Era uma briga muito forte, era uma rivalidade braba. Mas hoje não tem mais isso.
Sempre dava muita gente nos jogos. Lá em casa ninguém usava preto e branco (risos). Não é porque eu sou centrista, mas as cores do Centro (vermelho e branco) são muito lindas, as mesmas do Náutico, que também é meu time. E o Centro sempre teve mais torcida. Era o time do povo. O Colombo era dos mais ricos. Mas hoje não tem mais time. É só a sede. Já o Centro continua existindo, ainda bem, mesmo que seja com muita dificuldade.
O Dragão tem que continuar existindo. Faz muito bem para Limoeiro, movimenta a cidade. Muita gente ainda vai ao campo. A gente quer sempre o bem do Centro Limoeirense. É o orgulho da família, é o orgulho da cidade, é o orgulho da região. O time é patrimônio de Limoeiro e tem muita história. Às vezes ganha, às vezes perde, mas isso é do jogo. O Centro continua lá, e é bom que continue. Essa história não pode se acabar nunca. Se o Centro acabar, acaba-se a cidade, acaba-se a vida da gente.
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